e Por Que Ela Diz Que Barreira Nunca Foi Só o Idioma
Um visitante caminha pelo corredor de um congresso internacional. Ele tem poucos segundos — não minutos, segundos — para decidir se entra no seu estande. Para Natalie Acera, que soma 45 anos de mercado de eventos entre produção, montagem e exposição, é nesse intervalo mínimo que a maioria das oportunidades comerciais já está perdida, muito antes de qualquer venda ser tentada.
Existem pessoas que entram no mercado de eventos por acaso. Natalie não é uma delas. Sua primeira feira de negócios aconteceu antes mesmo de ela conseguir andar — ainda dentro de um carrinho de bebê, levada pelo pai. Quarenta e cinco anos depois, ela transformou essa vivência em um método, uma sala de aula e uma forma muito particular de enxergar por que alguns eventos geram negócio e outros só geram crachás. E é dessa mesma vivência que nasce a frase que resume sua visão sobre evento sem barreiras: não existe. O que existe é comunicação bem ou mal resolvida — e é essa diferença que decide se um expositor internacional sai de um evento com negócio fechado ou com uma oportunidade que nunca chegou a começar.
Uma infância dentro do mercado de feiras A história de Natalie no setor não começa com ela — começa com o pai, argentino, que atravessou a fronteira e nunca mais saiu do mundo das feiras de negócios.
“Minha família tá há 45 anos no mercado de evento. Antes de eu nascer, meu pai já tava no mercado de feira de negócios. Meu pai argentino, veio pro Brasil, se conectou com esse mundo e dali não saí mais.”
Ele a levou para dentro desse universo antes que ela tivesse qualquer chance de escolher outra coisa.
“Ele me colocou nesse mercado. Minha primeira feira foi uma OD quando eu tava num carrinho de bebê ainda. Então eu respiro, eu vivo esse mercado de eventos e de feiras de negócios desde muito pequena.”
É uma origem que explica bastante da segurança com que ela fala sobre o setor hoje: não é uma especialista que estudou o mercado de fora para dentro. É alguém que nunca conheceuoutra rotina — e que, por isso, não fala do mercado de eventos como quem observa de fora.
Ela nasceu dentro dele.
Os três lados de uma mesma operação
O que diferencia a trajetória de Natalie da maioria das pessoas que atuam com eventos é que ela não ficou de um único lado do balcão. Produziu, montou e expôs — e cada uma dessas posições enxerga o evento de um ângulo diferente, quase sempre sem diálogo entre si.
“Hoje, à frente dessa estratégia, desse método do expositor inteligente, defendendo muito o lado desses expositores, dos produtores de feiras, porque acompanhei todos os lados: desde quem produzia, de quem construía, de quem executava. Já fui expositora.”
É dessa soma de experiências que nasce o argumento central que ela defende hoje: quem só enxerga o evento por um lado tende a tratar os outros dois como departamentos de apoio, quando na prática os três decidem juntos se a feira funciona.
“Com essa visão 360, hoje consigo ajudar eles a pensarem e a entregar uma feira melhor de forma estratégica.”
Essa visão de 360 graus é rara no setor, e é o alicerce sobre o qual ela constrói tudo o que defende hoje — inclusive a tese, mais adiante, de que comunicação (e não tecnologia) é o pilar central de qualquer feira de negócios.
De expositora a professora: o nascimento do método Expositor Inteligente
Depois de anos vivendo os bastidores da produção e da montagem, Natalie migrou para um papel mais estratégico: ensinar. Hoje ela é professora em uma escola de produtores de eventos e lidera o método Expositor Inteligente, voltado a ajudar expositores a extrair mais resultado comercial da sua presença em feiras — com foco em comunicação clara, visual e verbal, como diferencial competitivo.
Ela é clara sobre o que separa alguém que só participa de eventos de alguém que realmente produz.
“Eu digo que eu sou uma eterna produtora de eventos. A pessoa que produz eventos precisa ser uma pessoa muito povo, muito plural. Você pode sim aprender a ser produtor de eventos — eu inclusive sou professora na escola de produtores de eventos — mas é uma… você treina as suas habilidades, mas você nasce com aquele instinto de produtor.
“Essa combinação entre instinto e técnica é o que ela tenta transferir para os expositores que orienta: a preocupação constante de quem produz não é preencher um estande, é melhorar a experiência de quem visita.
“A preocupação do produtor é trazer a melhor experiência para aqueles visitantes. Como que eu vou tornar a experiência desse meu visitante nesse evento, nessa feira de negócios, a melhor possível?”
Existe um evento sem barreiras?
É aqui que a conversa muda de tom. Perguntada diretamente sobre o que seria um evento sem barreiras, Natalie não descreve uma condição ideal — ela questiona a própria pergunta.
“Eu acho que não existe um evento sem barreiras.”
A explicação vem em seguida, e é onde ela ancora todo o resto do raciocínio: se a razão de existir de uma feira é conectar pessoas para gerar valor, então a comunicação não é um detalhe de apoio — é a condição para que isso aconteça.
“A intenção de uma feira de negócios é as pessoas poderem aprender, trocar, comprar, vender. E para isso, a comunicação é a base mais importante para que isso aconteça.”
Ela aponta um erro comum entre expositores e produtores: confundir “conseguir se comunicar” com “se comunicar bem”.
“Às vezes os expositores e produtores ficam confiantes no portunhol, confiantes no inglês básico, e acham que vão fechar o olho e encarar — o importante é só se comunicar. Não. O importante é se comunicar bem.”
O erro que custa caro: tratar o idioma como detalhe operacional
Volte ao visitante andando pelo corredor do congresso, mencionado no início deste texto.
Segundo Natalie, o que decide se ele entra no estande não é só o que está escrito na comunicação visual — é se ele entende aquilo rápido o suficiente.
“Um visitante tem poucos segundos para decidir se ele entra no seu estande, se ele se comunica com você ou não. Isso tem muito a ver com a sua comunicação visual — às vezes você está num estande, numa feira, e demora para a pessoa entender o que você faz. Aí você já perdeu a conexão, e a pessoa nem entra para elaborar um assunto com você.”
E quando esse mesmo problema acontece em outro idioma, o custo não é apenas uma venda perdida — é a perda de uma rede de relações que aquele contato poderia ter aberto.
“Essa questão do idioma não é um detalhe só operacional nas feiras de negócios. Ela não te faz perder só uma venda — ela te faz perder uma possibilidade e uma conexão muito maior.”
A barreira nunca foi o idioma em si. Foi tratar a comunicação como um detalhe secundário.
A ansiedade que todo produtor conhece
Há uma preocupação específica que Natalie descreve como constante entre quem organiza congressos e feiras internacionais: o medo de que a tradução falhe justamente no momento técnico mais importante da apresentação.
“A preocupação é gigante, porque… e se aquela pessoa que está traduzindo não traduz da forma correta? E se aquele palestrante tem um idioma materno que não é o inglês ou o espanhol — que hoje é o que a maioria dos tradutores fala?”
O conselho que ela dá aos seus expositores vai direto ao ponto: falar um idioma razoavelmente bem não é o mesmo que dominar o vocabulário técnico de um setor.
“Não adianta só você contratar alguém que diz que fala um bom inglês, porque tem muitos termos específicos que muitos deles não sabem. Aí a comunicação, que é a base para que a experiência fique melhor, não acontece. E frustra.”
Ela cita os congressos médicos como o exemplo mais extremo desse risco — um ambiente onde a terminologia técnica deixa pouca margem para erro de tradução.
“Os congressos médicos são, acho, o ambiente com mais palavras difíceis para um tradutor conseguir traduzir. Se a inteligência artificial consegue ter essa percepção na hora de traduzir, quem está ali aprendendo vai aprender da forma correta. Isso é incrível.”
Como a inteligência artificial entrou na rotina dela
Um dos momentos mais reveladores da conversa não estava no roteiro de perguntas.
Ao ser questionada sobre como enxerga a inteligência artificial dentro dessa nova era de conexão entre pessoas, Natalie respondeu com uma história pessoal.
“Eu tenho um filho de 6 anos. E ontem nós fomos fazer um exercício da escola dele, que ele tinha que procurar quatro tartarugas, e o meu filho de 6 anos foi ao ChatGPT e falou: ‘Por favor, me traga quatro tartarugas’. Isso para mim resume muito o que é a tecnologia, o que é a inteligência artificial.”
Ela usa esse episódio para rebater um medo comum — de que a próxima geração perca capacidade de pensar por depender de ferramentas de IA.
“Tem gente que reluta e fala assim: ‘Ah, as crianças, o futuro vai deixar de ser inteligente porque vai ficar preso à inteligência artificial?’ Não. Eles vão focar em outras coisas, em outras habilidades, do que às vezes ficar pesquisando sobre um assunto.”
Na própria rotina profissional, ela descreve a IA como parte estrutural do trabalho — usada na consultoria e no desenvolvimento do método que leva aos expositores.
“Eu estudo inclusive muito. Uso muito na minha empresa, a gente usa muito, né? No meu método, na minha consultoria, a gente utiliza bastante.”
Mas ela faz questão de marcar onde está o limite dessa ferramenta — e onde começa o trabalho que só a pessoa por trás do prompt pode fazer.
“Nada adianta uma inteligência artificial sem um prompt correto, sem alguém por trás dando a direção para aquilo acontecer da melhor maneira. O que tem aqui na sua cabeça, que você vai transcrever pra IA, é o quanto que você vai ter de resultado dela também. Se você fizer uma pergunta simples, ele vai vir com uma resposta simples.”
Por que confiabilidade muda a experiência
Depois de conhecer a proposta da Orya durante a conversa, Natalie destacou dois pontos que, para ela, mudam a relação de confiança entre produtor e ferramenta de tradução: a responsabilidade de quem contrata e a permanência do conteúdo.
“Se eu, como produtor do evento, trago vocês para isso, eu estou licenciando vocês. Então não é uma tradução qualquer. Quando você me trouxe a questão de que isso também fica armazenado, que eu também posso interagir, isso me traz um outro laço de confiança.”
Ela também reconheceu, pela própria experiência como palestrante, uma limitação que intérpretes humanos enfrentam quando o idioma do palco muda no meio de uma frase.
“Os tradutores são preparados, mas não tão preparados para essa mudança rápida de idioma. Às vezes eu estou dando uma palestra em inglês, mas meu idioma materno é o português, e não consigo explicar uma coisa em inglês. Eu falo: desculpa, vou traduzir em português, depois vocês veem como a gente resolve isso. Essa tecnologia já traz isso — e traz uma tranquilidade muito maior para os produtores.”
É importante marcar que essa é a leitura de Natalie sobre a tecnologia depois de vê-la em uma demonstração — não um dado de desempenho da Orya.
Mas é exatamente esse tipo de validação, vindo de alguém com 45 anos de mercado, que dá peso à discussão sobre onde a tradução tradicional ainda deixa lacunas.
A visão dela sobre o mercado global e feiras híbridas
Com 45 anos de mercado como referência de comparação, Natalie tem uma leitura tranquila sobre o crescimento dos eventos online — sem o alarmismo que dominou boa parte do setor durante a pandemia.
Quando perguntada sobre como o mercado evoluiu desde que seu pai chegou ao Brasil, ela separa duas coisas que costumam ser confundidas: o formato do evento e o motivo pelo qual ele existe.
“Um ano é muito pouco pra gente mensurar o que vai acontecer. Muita coisa mudou em construção, de tecnologia, de percepção, mas o que não mudou foi o básico do que uma feira de negócios existe: esse encontro entre fornecedores, entre clientes, esse encontro de pessoas para que pudessem ter uma geração de negócios.”
Para ela, os formatos online resolveram um problema de acesso, não um problema de propósito.
“Claro que eles ajudaram muito, porque hoje nós somos cada vez mais globais, mas nunca vai deixar de existir esse convívio de pessoas. Eu defendo muito isso. Essa intenção de feiras e eventos de construir relacionamento nunca vai deixar de existir. Nunca deixou. E daqui a um ano, daqui 10 anos, 100 anos, não vai deixar.”
A tecnologia amplia quem consegue participar. Não substitui por que as pessoas participam.
O recado dela para quem trabalha com eventos
Ao final da conversa, Natalie deixou uma mensagem que não é dirigida só aos expositores que ela orienta, mas a qualquer pessoa que constrói a cadeia de eventos corporativos — agências, montadoras e produtores.
“O que nós temos como intenção para esses encontros — sejam eles congressos, eventos, summits, feiras, o que for — é esse pilar mais importante da comunicação. A gente precisa defender muito isso como pilar para que a gente continue construindo cada vez mais coisas. A educação faz parte disso.”
E fecha com um convite direto à colaboração entre quem constrói esse mercado.
“Vamos se dedicar a olhar para essa parte educacional, para compartilhar ideias, para ser plural, para trazer ideias pra mesa de novos fornecedores, de novas discussões — que é isso que vai fazer com que a gente perpetue aí muitos anos essa reunião de pessoas que são os eventos corporativos e feiras de negócios.”
Quem acompanha o trabalho de Natalie
Fora dos bastidores da produção, Natalie também construiu uma presença como criadora de conteúdo — uma extensão natural de quem cresceu, segundo suas próprias palavras, “viciada em luz” por influência do pai fotógrafo.
No dia da entrevista, ela comemorava ter ultrapassado 10 mil seguidores de forma orgânica, resultado de compartilhar bastidores e aprendizados do método Expositor Inteligente com o público que atende.
O que isso muda na forma de pensar um evento internacional
Se a comunicação é a condição para que um evento cumpra sua função — conectar pessoas para gerar valor —, então tratá-la como item de logística, resolvido na véspera com “alguém que fala inglês”, é decidir de antemão quantas conexões vão se perder.
A tradução simultânea com IA resolve parte técnica desse problema: latência menor, domínio de vocabulário específico, disponibilidade em qualquer idioma que o participante escolher.
Mas a virada de perspectiva que Natalie propõe é mais ampla: comunicação clara, visual e verbal, antes, durante e depois do evento.
É essa mesma pessoa — que já esteve dos três lados do balcão, que ensina o ofício e que discute tecnologia com naturalidade — que resume sua visão de mercado em uma frase só:
Comunicação não é detalhe, é o motivo pelo qual um evento existe.
Quem organiza ou expõe em eventos internacionais sem esse cuidado não está apenas correndo um risco técnico. Está decidindo, sem perceber, quantas oportunidades vai deixar na mesa.
Se o palco é grande, a inteligência é Orya.
Perguntas Frequentes
Quem é Natalie Acera?
Natalie Acera é produtora de eventos com 45 anos de vivência familiar no mercado de feiras de negócios. Já atuou como produtora, montadora e expositora, é professora em uma escola de produtores de eventos e lidera o método Expositor Inteligente.
O que é o método Expositor Inteligente?
É a estratégia desenvolvida por Natalie Acera para ajudar expositores a extrair mais resultado comercial de sua presença em feiras, com foco em comunicação clara, visual e verbal, como diferencial competitivo.
O que é um evento sem barreiras?
Segundo Natalie Acera, não existe um evento totalmente sem barreiras — existe comunicação bem resolvida ou mal resolvida.
Quanto mais clara for a comunicação entre organizadores, palestrantes, expositores e público, menores as barreiras que separam essas pessoas de gerar valor entre si.
Por que a comunicação é mais importante do que a tradução em si?
Porque a tradução é apenas uma parte da comunicação.
Um evento pode ter tradução tecnicamente perfeita e ainda falhar se a comunicação visual do estande, a clareza da mensagem ou o vocabulário técnico usado não fizerem sentido para quem está do outro lado.
Qual é o maior erro dos expositores em relação ao idioma?
Tratar o domínio básico de um idioma como suficiente.
Falar um inglês ou espanhol intermediário não garante que termos técnicos específicos do setor sejam comunicados corretamente — e é exatamente aí que a experiência do visitante se frustra.
Como Natalie Acera usa inteligência artificial no seu trabalho?
Ela usa IA como ferramenta de apoio na consultoria e no desenvolvimento do próprio método, mas defende que o resultado depende diretamente da qualidade do direcionamento — do “prompt” — dado por quem está usando a ferramenta.
Como a inteligência artificial ajuda na tradução de eventos técnicos?
Ao ser alimentada com o vocabulário específico do contexto de cada evento, a IA consegue traduzir termos técnicos com mais precisão do que um tradutor generalista, além de lidar melhor com mudanças rápidas de idioma no meio de uma apresentação.
O que Natalie defende como pilar central para o futuro dos eventos?
Comunicação.
Para Natalie, o propósito de uma feira de negócios — conectar pessoas para gerar valor — só se cumpre quando a comunicação entre organizadores, expositores e público é clara, independentemente do formato ou do idioma envolvido.